Testosterona: afinal, quem realmente precisa dela?

Testosterona: afinal, quem realmente precisa dela?

O interesse cresceu junto com a cultura do corpo, das redes sociais e da promessa de mais energia, mais músculo e mais juventude. Só que a testosterona não é um suplemento de desempenho. É o tratamento de uma doença, o hipogonadismo, e só quem realmente tem essa doença se beneficia da reposição.

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Por Dr. Willian Cassuriaga Aymone · Endocrinologista · CRM-SC 24336 · RQE 14824

Dez ou quinze anos atrás, poucos homens me perguntavam sobre testosterona. Hoje é uma das perguntas mais frequentes do consultório, muitas vezes acompanhada de uma convicção: “Doutor, acho que preciso repor.” O interesse cresceu junto com a cultura do corpo, das redes sociais e da promessa de mais energia, mais músculo e mais juventude. Só que a testosterona não é um suplemento de desempenho. É o tratamento de uma doença, o hipogonadismo, e só quem realmente tem essa doença se beneficia da reposição.

Em poucas palavras: precisa de reposição de testosterona o homem que tem sintomas persistentes de deficiência do hormônio e níveis inequivocamente baixos no sangue, confirmados por exames bem feitos e depois de afastadas as contraindicações [1]. Todo o resto é conversa de marketing.

O que é o hipogonadismo masculino

É uma síndrome clínica: sintomas compatíveis, como queda do desejo sexual, dificuldade de ereção, cansaço, perda de massa muscular, aumento da gordura abdominal e humor mais baixo, somados à comprovação laboratorial de que a testosterona está realmente reduzida [1]. Um dos dois sem o outro não fecha o diagnóstico. Um homem com exame baixo e nenhum sintoma não é, necessariamente, um paciente. E um homem com sintomas e testosterona normal precisa investigar outras causas.

Como é feito o diagnóstico de testosterona baixa

A testosterona varia ao longo do dia, por isso o exame deve ser colhido pela manhã, entre 7h e 10h, em jejum. Se o resultado vier baixo, ele precisa ser confirmado por uma segunda dosagem, em condições parecidas, cerca de quatro semanas depois [1].

Valores de referência da testosterona total

Pelo posicionamento brasileiro conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, da Sociedade Brasileira de Urologia e da Associação Brasileira para o Estudo da Medicina Sexual, publicado em 2026, a testosterona total abaixo de 264 ng/dL sustenta o diagnóstico, e acima de 350 ng/dL torna o diagnóstico improvável. Entre 264 e 350 ng/dL existe uma zona cinzenta, em que é preciso investigar mais, muitas vezes com a dosagem de SHBG e o cálculo da testosterona livre [1]. Esses números são referências para o médico interpretar junto com o quadro clínico. Não servem para autodiagnóstico.

Quando a testosterona baixa não é o problema principal

Muitas vezes a testosterona está baixa por consequência de outra condição: obesidade, diabetes, doenças crônicas, uso de opioides ou corticoides, e uso prévio de anabolizantes. É o chamado hipogonadismo funcional. Nesses casos, tratar a causa vem primeiro. Emagrecer e manter atividade física regular podem restaurar parcialmente o eixo hormonal e devem ser fortemente incentivados antes de pensar em reposição [1]. Trocando em miúdos: em muitos homens, o caminho mais eficaz não é a injeção, e sim cuidar do peso, do sono e da saúde metabólica.

Quem não precisa (e não deve) repor testosterona

A reposição de testosterona não deve ser feita para ganho de performance nem como terapia antienvelhecimento [1]. Também não é recomendada com a finalidade isolada de emagrecer, controlar a glicemia ou reduzir risco cardiovascular [1]. E o uso de esteroides anabolizantes com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo é vedado pelo Conselho Federal de Medicina [2]. Isso vale para o “ciclo”, para o “chip” e para a fórmula manipulada que promete rejuvenescer. Não há respaldo científico para nenhum deles.

Quem precisa e como é o tratamento

A reposição está indicada para homens com sintomas persistentes e níveis inequivocamente baixos, depois de afastadas as contraindicações [1]. O objetivo é levar a testosterona para a faixa médio-normal, de aproximadamente 450 a 600 ng/dL, com melhora dos sintomas e manutenção das características sexuais secundárias [1].

Formas de reposição disponíveis no Brasil

Entre as opções disponíveis no Brasil, o posicionamento dá preferência às injeções intramusculares de longa duração, que mantêm os níveis mais estáveis. As injeções de ação mais curta continuam muito usadas, mas causam mais oscilações. O gel aplicado na pele é uma alternativa eficaz e segura, principalmente para quem prefere evitar injeções. Já os comprimidos e os implantes manipulados não são recomendados [1].

Contraindicações: quem não pode usar

Há situações em que a reposição está contraindicada: câncer de mama masculino, câncer de próstata ativo ou suspeito sem avaliação urológica adequada e desejo de ter filhos a curto prazo, já que a testosterona pode comprometer a produção de espermatozoides [1]. Outras condições exigem cautela ou tratamento prévio, como hematócrito elevado, apneia do sono grave sem tratamento, insuficiência cardíaca descompensada e infarto ou AVC recentes [1]. Homens que querem ser pais podem contar com alternativas que estimulam a própria produção do hormônio e preservam a fertilidade, definidas caso a caso pelo especialista [1].

O acompanhamento faz parte do tratamento

Quem repõe testosterona não é “dono” da dose. O tratamento pede reavaliação clínica e laboratorial aos 3, 6 e 12 meses e, depois, a cada 6 a 12 meses, com controle da testosterona, do hematócrito, do PSA e do perfil metabólico. Se o hematócrito passar de 54%, a dose precisa ser ajustada ou o tratamento suspenso temporariamente. E, se após seis meses com níveis adequados não houver benefício clínico, vale reavaliar o diagnóstico e considerar interromper [1].

Em resumo

Testosterona não é atalho, nem selo de virilidade, nem remédio de emagrecimento. É um tratamento que muda a vida de quem tem hipogonadismo de verdade e traz riscos sem benefício para quem não tem. A melhor decisão começa por uma avaliação completa, com história clínica, exame físico e exames colhidos do jeito certo.

Quando procurar um endocrinologista

Se você tem sintomas como queda do desejo, cansaço persistente, perda de massa muscular ou humor rebaixado, ou está em dúvida sobre um exame de testosterona, marque uma avaliação. Meu atendimento é particular, presencial em Tubarão e por telemedicina, e o plano de cada paciente é feito sob medida.

Referências

  1. Hohl A, Lopes L, Ronsoni MF, Miranda EP, Fighera TM, Facio FN, Marchesan LB, Torres LO. Care of patients with male hypogonadism: a joint position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM), the Brazilian Society of Urology (SBU), and the Brazilian Association for Sexual Medicine and Health (ABEMSS). Int Braz J Urol. 2026;52(3):e20250610. doi:10.1590/S1677-5538.IBJU.2025.0610.
  2. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333, de 30 de março de 2023. Diário Oficial da União, 11 abr 2023; Seção 1, p. 226.

Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Escrito e revisado por Dr. Willian Cassuriaga Aymone, endocrinologista, CRM-SC 24336, RQE 14824.