Menopausa: o que a ciência realmente diz sobre reposição hormonal

Testosterona: afinal, quem realmente precisa dela?

O interesse cresceu junto com a cultura do corpo, das redes sociais e da promessa de mais energia, mais músculo e mais juventude. Só que a testosterona não é um suplemento de desempenho. É o tratamento de uma doença, o hipogonadismo, e só quem realmente tem essa doença se beneficia da reposição.

Menopausa: o que a ciência realmente diz sobre reposição hormonal

Durante anos, muitas mulheres atravessaram essa fase sozinhas e com medo. Vale entender de onde veio esse medo e o que a ciência diz hoje.

Tireoide: o maestro da orquestra metabólica

Do tamanho de uma borboleta e instalada na frente do pescoço, a tireoide comanda mais coisas do que a maioria das pessoas imagina: batimentos do coração, temperatura do corpo, funcionamento do intestino, energia, humor, ciclo menstrual e até a velocidade com que gastamos calorias. Quando ela desafina, a orquestra inteira sente. E, por ser silenciosa, muita gente convive por meses com sintomas sem desconfiar de que a causa está ali.

Emagrecimento saudável: o que o endocrinologista recomenda

Não existe uma dieta mágica nem um remédio que resolva tudo sozinho. Emagrecer com saúde depende de cinco frentes trabalhando juntas: alimentação adequada, atividade física (de força e aeróbica), sono suficiente, cuidado com a saúde mental e, quando existe indicação médica, o uso de medicações como a semaglutida e a tirzepatida. Falta uma delas, o resultado costuma ficar pela metade.

Diabetes: quais são os tipos e quais metas de glicemia buscar

Muita gente fala "diabetes" como se fosse uma doença só. Na verdade, é um grupo de condições que têm em comum o excesso de açúcar no sangue, mas com causas e tratamentos diferentes. Saber qual é o seu tipo, e qual é a sua meta, muda o rumo do tratamento.

Por Dr. Willian Cassuriaga Aymone · Endocrinologista · CRM-SC 24336 · RQE 14824

“Doutor, eu não me reconheço.” É uma frase que ouço com frequência no consultório. Ela vem depois de noites de suor, de um sono que não volta, de um humor que parece de outra pessoa e de um corpo que já não responde como antes. A menopausa não é só o fim das menstruações. É uma travessia, e como toda travessia ela mexe com a imagem que temos de nós mesmas, com a relação com o espelho e, muitas vezes, com o desejo.

Durante anos, muitas mulheres atravessaram essa fase sozinhas e com medo. Vale entender de onde veio esse medo e o que a ciência diz hoje.

O medo da reposição hormonal que nasceu em 2002

Em 2002, o estudo Women’s Health Initiative (WHI) mostrou que a combinação de estrogênio com progestágeno aumentava alguns riscos, como o de eventos cardiovasculares e de câncer de mama, em mulheres saudáveis [1]. O impacto foi enorme: o uso da terapia hormonal despencou, e muitas mulheres com sintomas intensos ficaram sem tratamento.

O que mudou desde então

Com o tempo, as análises mostraram que o quadro é mais nuançado. Os riscos dependem da idade em que se começa, do tempo desde a menopausa, do tipo de hormônio e da via de administração. Depois de rever as evidências, a agência reguladora americana (FDA) aprovou, em fevereiro de 2026, novas bulas para produtos de terapia hormonal, retirando os alertas em destaque sobre doença cardiovascular, câncer de mama e demência, mas mantendo o alerta sobre câncer de endométrio para o estrogênio isolado em mulheres que têm útero [2]. Isso não significa que o tratamento seja seguro para todas. Significa que a decisão deve ser individual, e não baseada em medo.

O que o estrogênio faz de fato

O estrogênio é o tratamento mais eficaz para as ondas de calor e os suores noturnos e também para os sintomas genitourinários, como ressecamento vaginal, dor na relação e infecções urinárias de repetição. Ele ainda ajuda a proteger os ossos [3]. A relação entre benefícios e riscos costuma ser mais favorável em mulheres com menos de 60 anos ou dentro de 10 anos da menopausa, que não tenham contraindicações [3].

Quando o problema é apenas vaginal, o estrogênio em baixa dose aplicado localmente costuma bastar [3]. A via transdérmica (adesivo ou gel) pode ter menor risco de trombose do que a via oral em algumas mulheres [3]. E a terapia hormonal não deve ser usada com o objetivo de prevenir doença cardíaca ou demência [3].

E a progesterona?

Quem tem útero precisa associar um progestágeno ao estrogênio, porque o estrogênio sozinho estimula o revestimento do útero e aumenta o risco de câncer de endométrio. A progesterona protege esse tecido. Mulheres que retiraram o útero geralmente usam apenas estrogênio [3]. O aumento no risco de câncer de mama observado com a combinação depende do tempo de uso, e por isso a necessidade e a duração do tratamento devem ser reavaliadas regularmente [1,3].

Quem deve evitar a reposição hormonal

Em geral, a terapia hormonal sistêmica não é indicada para mulheres com câncer de mama ou outro câncer sensível a hormônios, doença do fígado em atividade, sangramento vaginal sem explicação ou história de trombose, AVC ou infarto, entre outras situações. Cada caso precisa ser avaliado individualmente [3].

Testosterona para mulheres: o que realmente se sabe

Aqui a conversa precisa de cuidado, porque é onde mais circula promessa fácil. A testosterona não é o hormônio da energia, da disposição ou do emagrecimento na mulher. A única indicação com evidência é o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH): a queda persistente do desejo sexual que causa sofrimento, em mulheres na pós-menopausa [4].

Qual é o efeito real

Nesse cenário, doses que aproximam os níveis de uma mulher na pré-menopausa trouxeram, em média, cerca de um evento sexual satisfatório a mais por mês em comparação ao placebo, além de melhora do desejo, da excitação, do orgasmo e do incômodo com a queda do desejo [4]. É um efeito real, mas moderado. Não há dados suficientes para usar testosterona em outros sintomas ou para prevenir doenças [4].

Como funciona no Brasil

É importante saber também que, no Brasil, não há formulação de testosterona aprovada para mulheres, então o uso é off-label, com dose individualizada e acompanhamento por exames. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia considera que ela pode ser cogitada quando outras estratégias falham, depois de discutir riscos e benefícios com a paciente [5]. O nível de testosterona no sangue, sozinho, não explica a queda do desejo, e a prescrição de hormônios androgênicos deve seguir as normas do Conselho Federal de Medicina, que a admite, por curto prazo, em mulheres com TDSH e a veda para fins estéticos ou de ganho de massa muscular [5,7].

O desejo não mora só nos hormônios

Desejo é feito de corpo, mas também de história, de vínculo, de cansaço, de autoimagem, de humor, de sono, de dor. Muita mulher que chega dizendo “perdi a vontade” tem, na verdade, dor na relação por ressecamento, depressão, insônia, medicamentos que afetam a libido, sobrecarga emocional ou uma relação que esfriou. Por isso as diretrizes recomendam uma avaliação biopsicossocial antes de qualquer hormônio [6]. Às vezes o caminho passa por estrogênio vaginal, terapia sexual ou psicoterapia, ajuste de medicamentos e cuidado com o sono. Só depois, quando indicada, entra a testosterona.

A travessia

Nem toda mudança dessa fase é doença. Perceber o que mudou, dar nome ao que se sente e pedir ajuda faz parte do cuidado. A reposição hormonal não é obrigação nem pecado: é uma ferramenta. E a escolha de usá-la, ou não, é sua, feita com informação e não com medo.

Quando procurar um endocrinologista

Vale marcar uma avaliação se você tem ondas de calor, suores noturnos, insônia, alterações de humor, ressecamento ou dor na relação, queda do desejo, menstruação irregular ou simplesmente sente que algo mudou e não sabe o quê. Meu atendimento é particular, presencial em Tubarão e por telemedicina, e o plano de cada mulher é feito sob medida.

Referências

  1. Rossouw JE, Anderson GL, Prentice RL, et al. Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women: principal results from the Women’s Health Initiative randomized controlled trial. JAMA. 2002;288(3):321-333.
  2. Makary MA, Nguyen CP, Høeg TB, Tidmarsh GF. Updated labeling for menopausal hormone therapy. JAMA. 2026;335(2):117-118. doi:10.1001/jama.2025.22259.
  3. The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794.
  4. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global consensus position statement on the use of testosterone therapy for women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666.
  5. Weiss RV, Hohl A, Athayde A, et al. Testosterone therapy for women with low sexual desire: a position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism. Arch Endocrinol Metab. 2019;63(3):190-198. doi:10.20945/2359-3997000000152.
  6. Parish SJ, Simon JA, Davis SR, et al. International Society for the Study of Women’s Sexual Health clinical practice guideline for the use of systemic testosterone for hypoactive sexual desire disorder in women. J Sex Med. 2021;18(5):849-867.
  7. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333, de 30 de março de 2023. Diário Oficial da União, 11 abr 2023; Seção 1, p. 226.

Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Escrito e revisado por Dr. Willian Cassuriaga Aymone, endocrinologista, CRM-SC 24336, RQE 14824.